Da inscrição no Pórtico de Delfos “Conhece-te a ti mesmo” aos dias de hoje muito tempo se passou, mas as coisas em relação ao autoconhecimento não parecem ter mudado de modo significativo.
O homem continua sendo, em face de si mesmo, um ilustre desconhecido.
É bem verdade que houve avanços significativos, nas ciências, nas artes, na própria religião, e em tudo que tange ao conhecimento do ser humano.
A respeito de si mesmo, entretanto, enquanto eu sujeito (ou talvez eu assujeitado), o homem pouco sabe.
É fato que após um longo período de pensamento mágico e misticismo, quando se buscou compreender o que afinal em última instância é o homem, este sujeito de direitos e deveres, através de um olhar mítico, chegou-se à conclusão de que outro direcionamento, nas buscas, seria necessário.
E assim de explicações idealistas, dado que metafísicas e voltadas para o abstrato, extremamente subjetivistas, caiu-se no extremo oposto, e partiu-se para o concreto, o físico (melhor seria dizer o orgânico), extremo no qual, manteve-se o idealismo no bojo e o subjetivismo travestido de organicismo idem. E veio o império do corpo.
Tanto numa quanto noutra versão de buscas, o que se buscou sempre (acostumados que estamos a pensar em termos de altura largura e profundidade), no universo das coisas que existem neste mundo, foi um eu, de alguma forma que fosse tangível, para que assim se tornasse apreensível, pelos nossos sentidos e conseqüentemente pela nossa tênue compreensão.
De tal forma, tanto nos caminhos das tentativas de explicações idealistas subjetivistas, quanto nos caminhos das tentativas de explicações idealistas, organicistas, se incorreu, no mesmo equívoco. Porque o homem não é uma coisa e sim um processo.
Na verdade, a própria realidade existe como um processo. Ou seja, há uma perene transformação em andamento, um vir e ir e/ou um ir e vir, constantes que confluem no Aqui e no Agora. E o que de fato existe? Apenas aquilo que poderíamos denominar de instante.
E uma confluência de coisas no instante, o qual se encontra direta ou indiretamente relacionado a tudo que existe. O mais é divagação. Miragem. Delírio talvez. Ou loucura. O mundo de Maya, conforme diriam os orientais. Ilusão.
Acontece que enquanto humanos que somos temos a estranha mania de divagar, investir em miragens, para não dizer que insistimos no delírio ou na loucura de não percebermos o óbvio: apenas o instante deveras existe como algo que é simultaneamente localizado e processual. Ou seja: o instante não é uma coisa, ao menos não é uma coisa nas dimensões que possamos apreendê-lo em sua totalidade, e, sim algo processual, isto é, um processo. O restante é absolutamente da ordem do improvável.
Por isto, seria interessante caso pensássemos na possibilidade de que ao integrarmos essa realidade que é processual, fossemos também parte daquilo, melhor dizendo partículas processuais de um imenso (infinito?) processo. Não cabendo aí mais infrutíferas buscas de se apreender um eu, no mundo abstrato, como sendo uma entidade espiritual ou algo assim, e nem mesmo sequer cabendo infrutíferas buscas no sentido de se apreender ao eu, na concretude, como sendo mero organismo.
Na busca do autoconhecimento, o eu, sendo um processo, surgiria como “algo” que existe no instante, e, por sermos humanos, relacionado a circunstâncias sociais, históricas e culturais específicas, integrante deste mesmo processo denominado vida sobre a face da Terra integrando o Universo.



